Treliças bem trançadas | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 26/7/2019
Treliças bem trançadas
Ana Elisa Ribeiro

+ de 2000 Acessos

Não era fácil vê-los. Sabe aquelas estantes de madeira que têm portas de ripas trançadinhas? São portas de treliça e eram assim as que abrigavam os poucos livros que tínhamos em casa. Era mania da minha mãe: guardar tudo, tudinho, até biscoito. Chavear tudo. Toda prateleira tinha uma porta; toda porta tinha uma chave; toda chave tinha um ganchinho de por cadeado; todo cadeado era fechado; e os molhos de chaves pareciam arbustos cheios de galhos. Era assim a estante onde alguns livros ficavam guardados. Pela fresta estreita, na verdade uns quadradinhos, dava para ver algumas lombadas, nem sempre dava para ler o título.

Um lance de escadas abaixo, ficava uma outra estante, esta toda aberta, de prateleiras aeradas, com uma porção de gavetinhas pequeninas sob uma dezena ou duas de livrões, dos de capa dura, muitas folhas e fotografias de gente doente. Eram esses os livros de trabalho do meu pai, que a gente abria escondido para ver peles horrorosas, crianças horrendas e nomes difíceis de pronunciar.

Não havia outros livros em casa, em parte alguma. Não havia um cômodo com o nome de “biblioteca” e nem um espaço dedicado à leitura, propriamente. Havia, sim, um lugar que chamávamos de “escritório”, mas ele se misturava a outras coisas e funções, como um quarto ou uma sala de música.

Nesse mesmo cômodo misto, havia uma outra estante, que, com o tempo, foi se enchendo de enciclopédias desatualizadas e de CDs. Foram ficando ali os livros que usávamos nas pesquisas de escola, tão malfeitas e tão comuns. Era só copiar alguma coisa, por nome na capa, grampear e levar para a professora. Chamavam a isso de “pesquisa”. Longe de ser verdade. E pior: acho que não mudou muito. Hoje é até mais fácil copiar e colar, imprimir, por nome na capa e levar em papel A4. O que precisa mesmo... não mudou tanto.

Lembro-me de sentir um pouco de inveja ao ouvir um amigo dizer, para todo lado a que ia, que tinha em casa, quando criança, um cômodo chamado “biblioteca”. E eu logo imaginava um lugar lindo, atrás de um portal meio mágico, que era possível atravessar e sentir-se bem e inteligente lá dentro. Para compensar, certa vez ouvi uma amiga dizer, com o maior orgulho, que jogava todos os livros que encontrava em casa fora. “Minha casa não é depósito, não é biblioteca”. Assim mesmo, como se fosse terrível ter esses volumes em casa, disponíveis, gastando espaço de sei lá o quê.

Pelas frestas da madeira treliçada, eu sentia um enorme desejo de folhear aquelas obras que estavam ali. Eu sabia que não eram literárias nem nada. Eram, provavelmente, tratados de sociologia ou alguma antropologia, mas me despertavam para a leitura. Sem chance. Ninguém sabe onde fica a chave? Será que era para não ficarmos subversivos? Bem capaz. Ou era apenas mania de trancamento? Onde já se viu livro sequestrado? Cárcere privado. E nós... alheios, alienados.

Um dia, pensei comigo, bem decididamente: vou ter uma biblioteca minha, com os livros do meu desejo. E eu sabia, não sei como, que esse era um trabalho de resultados lentos, bem lentos. Podia chamar de “investimento”, algo assim, coisas que valem muito e que rendem bastante. Era o que eu pensava, sem nenhuma metáfora econômica. Mas não sei, tristemente, qual foi o primeiro item desse empreendimento. Não me lembro dos livros que comecei a juntar e nem em que lugar eles foram parar. Talvez eu tenha começado pelos volumes que a escola mandou ler e que minha mãe achou por bem comprar. Isso, sim, ela fazia com gosto, sem pestanejar. Um, dois, cinco. Ficavam sob minha guarda os meus e os dos meus irmãos, que davam menos importância às aquisições. Nem notavam quando eu catava cada título e juntava a outros, como numa coleção, salvando o mundo. Nem reivindicavam posse nem nada. E eu ficava bem feliz.

Juntando assim e depois comprando outros em sebos, com o dinheiro do lanche, é que começou a se formar uma biblioteca. Modesta, é claro, mas já era uma. Sem escadarias e tapetes e estantes imponentes, mas era sim. E com o tempo, sabe-se lá quanto, acabei adquirindo uma estante. Oh, uma estante! Era dessas de metal, abertas, onde os livros cabem e de que as traças não gostam. Ficou ali, num espaço do quarto de dormir, como um esqueleto deslocado, perto da cama e de uma mesinha. Uma estante, que foi ficando pouca, pequena, insuficiente, com livros em fila dupla e outros deitados por cima dos que estavam de pé. Livros que pediram uma outra estante, também preta, só que mais estreita, onde os livros fizeram novas filas e pareciam se reproduzir. Era isso mesmo, não era? Não é assim que se forma uma biblioteca?

Com o passar dos anos, esses livros e essas estantes foram tomando o espaço de tudo, quase expulsando a cama, os outros objetos, e os textos que esses livros carregavam foram ocupando a minha cabeça e eu fui ficando misturada com a biblioteca, a pequena biblioteca, e fui me sentindo parte dela e ela, parte de mim. Não é assim?

Repare: começou com uma curiosidade, depois virou um desejo, daí passou a um projeto e então tomou uma proporção tal que ocupou toda a minha vida. Os livros que eu li se mexem dentro da minha cabeça, dão asas à minha imaginação, enfeitam meus pensamentos, mas também me dão ideias para uns livros que eu comecei a fazer. Ah, sim, uma hora eu comecei a querer fazer meus próprios livros. E eles vão ficando em estantes na minha casa, mas também nas casas dos outros, de gente que eu nem conheço. E o que eu posso desejar? Que outras crianças fiquem curiosas, desejosas e que queiram também se misturar aos livros, bem misturadas.

LeP



Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 26/7/2019


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