Situações Hipotéticas | Assunção Medeiros

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Quarta-feira, 15/5/2002
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Situações Hipotéticas
Querido Evandro, que bom então que não é você que está enfrentando a situação hipotética que você descreveu. Agora eu entendi como duas pessoas tão diferentes quanto as que você descreveu podem se relacionar tão bem... no reino das conjecturas, é claro! Bom, eu não sou muito boa de lidar com conjecturas, talvez por possuir imaginação excessivamente fértil e me perder entre elas... Prefiro lidar com fatos, que são mais irredutíveis e não cedem diante de minhas fantasias. Bom, quanto às minhas dicas parecerem ingênuas, não sei não... só conheço um casal onde exista tamanho disparate intelectual quanto você descreveu. Um amigo meu, intelectual bastante produtivo, com alguns livros publicados, doutorado, um membro clássico da classe pensante, é casado com uma dona de casa militante, que acha que livros são aquelas coisinhas irritantes que juntam poeira e atrapalham a faxineira na hora da limpeza. Duas situações na vida deste casal -- que parece bem equilibrado em outros aspectos, e que não parece ser infeliz -- me impressionaram bastante. Primeiro, quando meu amigo fazia mestrado, tinha de comprar muitos livros, e isto era sempre motivo de briga entre os dois, porque ela achava tal coisa "jogar dinheiro fora" (!!). A solução encontrada por ele foi contrabandear os livros para dentro de casa e escondê-los, assim ela, que sequer percebia títulos e capas, pensaria que já estavam ali há tempos. A segunda situação foi, e é, ainda mais triste do MEU ponto de vista. Veja bem, digo meu, porque repito que o casal PARECE bastate satisfeito com a situação. Na hora da defesa de sua tese de mestrado, este meu amigo me ligou e disse que fazia questão da MINHA presença, pois era um momento importante de sua vida. Ele sempre divide comigo estas suas atividades. Toda a sua família estava lá comigo, exceto... a dita esposa, que não achou o momento importante o suficiente para faltar ao trabalho. Portanto, na minha humilde e algo ingênua opinião, o relacionamento deles só funciona porque meu amigo busca FORA DELE, em mim e talvez em outras amigas, o que precisa intelectualmente, e tem com a mulher um contrato social para a manutenção da casa e criação dos filhos. Eu não sei você, mas isso para mim seria a morte em vida. Sou incuravelmente romântica e busco sempre o contato entre as almas. Quanto ao cansaço, bom, eu dou aula em duas universidades, faço trabalhos imensos de tradução, faço parte de um grupo de estudos de cultura celta e germânica, estou preparando um livro, sou dona de casa, com tudo o que isto acarreta, e ainda sou aluna do Seminário de Filosofia do próprio Olavo de Carvalho. Sabe o que faço para relaxar, nos poucos intervalos que tenho? Leio. Ler me dá um prazer incrível, e nem tudo o que se lê é a Metafísica ou a Suma Teológica. Concordo que estudos profundos e trabalho mecânico não combinam quando há excesso, mas nada num profissional atarefado impede a leitura prazerosa de bons textos. Um beijo da ingênua Sue. :o)

[Sobre "Quem Não Lê Não É Humano"]

por Assunção Medeiros
15/5/2002 às
15h29 200.184.36.55
(+) Assunção Medeiros no Digestivo...
 
Cobranças
Cara amiga Sue. Aprecio muito sua sugestão, mas acho que seria muita ingenuidade a minha se eu já não fizesse isso desde o início da realação, não é? Na verdade a situação que descrevi não é exatamente a minha, como pode ter ficado implícito. Sempre escrevi poemas para minha namorada e até textos e artigos e ela adora todos eles. Entretanto, eu quis apresentar a situacão hipotética pelo fato de que muitas pessoas simplesmente não desenvolvem o gosto pela leitura, ou até gostam de ler, mas têm sono ou preguiça. Eu mesmo já trabalhei por um tempo - hoje só estudo - e chegava em casa às 9 da noite, morto de cansaço e não conseguia ler nada, embora morresse de vontade. Em algum lugar de seus escritos, Olavo de Carvalho afirmou uma coisa com a qual eu concordo em gênero, número e grau. Era algo como: "um sujeito que trabalha até as 8 da noite não vai chegar em casa e ler a Metafísica de Aristóteles". Então penso que essa coisa de achar que alguém vai buscar o conhecimento independentemente de qualquer coisa é bobagem. Ou a pessoa se dedica inteiramente a estudar, gastando não mais do que umas 5 horas por dia com trabalho (trabalho esse que não pode ser manual, pois dessa forma se cansaria muito), ou então ela pode até ler um pouco, mas suas leituras nunca vão passar de um certo grau de profundidade. E essa pessoa, por mais que pense que se livrou do senso-comum, será sempre mais uma figura de um nível intermediário entre a ignorância e a sabedoria, apenas portadora de uma "opinião" mais sofisticada que a dos outros. Mas, por mais estranho que possa parecer, não vejo nada de errado nisso. Esperar que todos virem filósofos só não é mais ingenuidade que achar que o indivíduo "antenado" e semi-culto é mais humano que um peão de obra, por exemplo. Portanto, acho que é preciso buscar outros parâmetros que auxiliem nessa análise do Alexandre (e sei que ele tem consciência disso, pois seu artigo não pretende esgotar o assunto). O problema é que, trabalhando apenas com situações-limite não se chega a lugar algum. É lógico que o relacionamento entre uma patricinha e um filósofo é inviável. Mas, segundo a perspectiva do Ricardo, qualquer relacionamento é inviável, a menos que os dois leiam quase que igual quantidade de livros. Com isso não concordo de modo algum.

[Sobre "Quem Não Lê Não É Humano"]

por Evandro Ferreira
15/5/2002 às
14h28 200.167.234.109
(+) Evandro Ferreira no Digestivo...
 
Colunistas: tempo e o espaço
Caro Rogério, não obstante eu ter escolhido viver em Goiânia (há 3 anos), sou de Fortaleza e sei bem do que você fala. Essa praga do agrupamento simbiótico colunista/madame/gigolô/colunáveis/aspirantes a colunáveis não para de crescer. Tem uma cidadezinha no interior de Minas, na fronteira com a Bahia, onde há 2 jornalecos. Acreditem: 40% da "metragem" é ocupada por colunas sociais. Cada um tem somente duas folhas duplas, mas entupidas de dessa babaquice. A maioria das "matérias" refere-se a festas da alta sociedade local. Uma cidade paupérrima! Análoga a essa cidade, que conheço bem, deve haver um sem número no Brasil. São Paulo, Paris e Nova Iorque, infeizmente, não são diferentes, guardadas as proporções dos colunista e colunáveis. Ou seja, o problema não é onde, mas quem. E o "quem" humano anda cada vez mais superficial e preso a valores meramente relacionados ao ego. Um abraço. Bernardo

[Sobre "Quem é essa gente?"]

por Bernardo
15/5/2002 às
13h15 200.163.217.179
(+) Bernardo no Digestivo...
 
Depois de tantos comentários
Ricardo, quisera eu que mais homens cobrassem de suas mulheres seu grau de leitura e humanidade. Assim teria mais amigas! :o) Eu já disse tempos atrás que amor aos livros é inato, porque a busca do conhecimento como um todo pressupõe a busca pelo auto-conhecimento e melhoria do mundo que nos cerca. Ética é tão parte disso quanto a alfabetização. E Evandro, meu querido, se já existe um relacionamento de tanto tempo, que tal tentar mostrar que você ficaria feliz em compartilhar algumas de suas leituras com ela? Escolha uns poemas bem bonitos, leia para a moça em voz alta... depois faça muito carinho e diga que ela o inspira da mesma forma. DUVIDO que depois disto ela não fique sentadinha do seu lado enquanto você lê... Dê a ela livros - pequeninos, no início - de presente, e diga que é "a cara dela". Logo logo, vocês vão ter de comprar um sofá novo para a sala de leitura dos dois! Os conselhos são de coração. Beijos a todos, da Sue

[Sobre "Quem Não Lê Não É Humano"]

por Assunção Medeiros
15/5/2002 às
12h54 200.184.36.43
(+) Assunção Medeiros no Digestivo...
 
Quem julga???
Que vença Concordo com o ponto de vista sobre a fórmula 1, só queria acrescentar que se o alemão ganhou a corrida foi por má indole dele mesmo pois a ele cabe a decisão de ganhar ou perder nessa situação. Portanto ele nunca será um campeão pois nem mesmo em sua família demonstra afeto (Ralph). A fórmula 1 é um circo que devemos acompanhar as ações de vermes que corrompem nossa sociedade.

[Sobre "Digestivo nº 81"]

por Vinicius Brown
15/5/2002 às
10h10 200.19.104.133
(+) Vinicius Brown no Digestivo...
 
POR MAIS QUE DOA ACEITAR ...
... realmente a leitura é que faz a diferença, amigo Bernardo. Pena que não andamos 24 horas por dia com uma câmera ou gravador. Se ontem eu tivesse uma em mãos, enviaria o que ouvi, da forma como foi ouvido, e seria difícil não dar razão ao Alexandre. Aliás, a coluna dele está ficando científica, pois até uma amostra eu já consegui. Dá vontade de espetar com uma agulha e guardar num mostruário. Caso isolado? De forma alguma, é o que vejo diariamente, mas ontem com maior destaque. Você colocou a questão ética e de ação. OU a pessoa nasce ética, OU não nasce (nada de "sementinha" ética a ser desenvolvida, por favor). Se nasceu ético, a leitura que a fará desenvolver-se, atuar ainda melhor dentro de seus parâmetros éticos inatos. Se não nasceu, a leitura é a última chance de ser ético ao menos por osmose. O papel da leitura é de real destaque, porque infelizmente não temos mais abundância de pessoas pelas quais posamos pautar nossa conduta, até pisarmos firmes com nossos pés. São poucos, pouquíssimos os modelos vivos que temos "a disposição". A pessoa de ética inata procura seus pares, não encontra, e tendo oportunidade, refugia-se nos livros. Já a questão da oportunidade é relativa. "Ah, não posso comprar livros" ... Para que servem as bibliotecas públicas? "É longe de casa" ...Mas não inacessível ... "É difícil para mim ler" ... Sabe ler? Adquira então o hábito que fica mais fácil. Por fim, a quantidade do conhecimento é uma decorrência natural do envolvimeto. Um só livro pouco explica, daí a necessidade de recorrer-se a outros e outros, inclusive para tornar o lido eficaz.

[Sobre "Quem Não Lê Não É Humano"]

por Ricardo
15/5/2002 às
09h42 200.227.233.116
(+) Ricardo no Digestivo...
 
Gigolô de madame
Bernardo, acertou na mosca. Dizem por aqui (Fortaleza) que o colunista social mais badalado, Lúcio Brasileiro, no dia seguinte à publicação das fotos de importantes "eventos sociais", só tem o trabalho de passar nas lojas de grife da cidade para recolher as ecomendas que alguns bons samaritanos deixaram pagas prá ele. Mas essa informação é de ouvir falar. Por favor, se quiserem ter a verdade investiguem. Não vamos ser irresponsáveis ao ponto de acusar alguém de gigolô de madame sem termos qualquer prova, né?

[Sobre "Quem é essa gente?"]

por Rogério Macedo
15/5/2002 às
08h59 200.194.102.154
(+) Rogério Macedo no Digestivo...
 
Guerreiro Impecável
Capitão, capitão... não pode ter sido felicidade que causou esse afrouxamento generalizado no seu texto. Você sempre foi um guerreiro impecável, que não fazia esse tipo de concessão ao humor, ao contrário o usava deveras bem (esse é o fórum das palavras antiguinhas, não é?)como arma para atormentar inimigos e espíritos fracos. Vejo agora decepcionada que meu Capitão Ornitorrinco também sofre às vezes de flatulência verbal... Estou triste como nunca... Beijo tristonho da Sue

[Sobre "ajoelhou? tem que rezar"]

por Assunção Medeiros
15/5/2002 às
02h41 200.184.36.125
(+) Assunção Medeiros no Digestivo...
 
Errata
leia-se "escatalógica" , tá?

[Sobre "Quem é essa gente?"]

por bernardo
15/5/2002 às
02h39 200.163.219.11
(+) bernardo no Digestivo...
 
Colunistas Sociais
Alexandre, Arrisco aqui um palpite sobre a origem dessa escalógica profissão: O colunista social. O cara não estudou e nâo tem grana e nem poder. Então,em vez de estudar ele vai puxar o saco de que tem poder e de quem ele acha de que tem grana, para ver ser ele, o colunista, cria algum poder e descola alguma grana. Ele poderia simplesmente puxar o saco de quem estudou, mas aí não teria graça... e nem assunto. Por outro lado, os que se deixam "colunizar" - ou aqueles que correm atrás disso- querem passar a idéia de que têm poder - ou de que têm grana - para aqueles que não têm poder nem grana ficarem com inveja deles. Interessante, não? No fundo, é o nosso velho conhecido pecado capital, a VAIDADE, pai/mãe de tantos desacertos em nossa (des)humanidade. Um abraço.

[Sobre "Quem é essa gente?"]

por Bernardo
15/5/2002 à
01h26 200.163.219.11
(+) Bernardo no Digestivo...
 
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